Como evitar que o cão da familia morda as suas crianças?

child and dog

Todos os anos perto de 2,8 milhões de crianças são mordidas por cães em todo o mundo. Mais de metade destes acidentes envolvem o cão da família ou de um amigo ou vizinho conhecido.

É possível existir uma agradável e pacífica convivência entre crianças de todas as idades e cães! Na maior parte dos casos em que não se verifica este tipo de interacção pacífica e agradável, é porque os próprios pais desconhecem ou negligenciam por completo as regras básicas de segurança a aplicar durante as sessões de brincadeira entre cães e crianças.

A maior parte dos pais envolvidos nestes acidentes não têm qualquer conhecimento sobre esta espécie tão próxima e leal ao Homem, partindo do pressuposto que um cão “bonzinho” nunca morderá qualquer criança. É importante que se entenda de uma vez por todas que não existem cães “bonzinhos” nem cães “mauzinhos”, são simplesmente cães! Cada um demonstrará comportamentos típicos do seu caráter e temperamento que podem ser desenvolvidos ou inibidos, consoante a orientação dada pelos humanos responsáveis pela sua criação e educação.

Quando se toma a decisão de incluir na família um elemento canino, hà que levar em consideração vários fatores para ser um dono responsável:

 -Disponibilidade e vontade para passeios na rua e brincadeiras que incluam o cão;

 -Disponibilidade para aprender a  interpretar a linguagem corporal canina;

 -Disponibilidade para conhecer e compreender os conceitos básicos de psicologia canina, para adestrar o seu cão em obediência social integrando-o numa sociedade com regras feitas para humanos;

 -Disponibilidade financeira para os tratamentos veterinários, alimentação, hotéis ou petsitters quando se ausentar de férias, para a aprendizagem de noções de psicologia canina com adestradores caninos qualificados para tal;

 -Disponibilidade para supervisionar as brincadeiras entre crianças e cães, dentro e fora de casa.

Nunca adote ou compre um cão como presente para os seus filhos! As crianças desconhecem as necessidades de um cão bem como, toda a responsabilidade financeira e cívica que estes seres exigem! O responsável pela educação do cão, alimentação, custo das consultas veterinárias, passeios e exercício diário, será você e somente você! A criança não tem conhecimento, discernimento e nem qualquer noção sobre estas responsabilidades! Se pretende levar para casa um cão ou gato ou outro animal qualquer, mentalize-se que: vocês – pais, serão os responsáveis pelo animal em causa!

Se compreender todas estas responsabilidades e estiver decidido a assumi-las então, estará preparado para pensar em adotar ou comprar um cão. Lembre-se no entanto, que quando fizer a escolha do cão que levará para casa deverá ter em consideração o seu caráter e temperamento. O ideal será entrar em contacto com um profissional com alguma experiência em comportamento canino. Este será a pessoa indicada para o ajudar a reconhecer um cão com o caráter e temperamento adequado ao seu estilo de vida e à sua personalidade. Se é uma pessoa calma e pouco ativa, não vai gostar de partilhar o seu espaço com um cão ativo que necessita de correr pelo menos 2 vezes por dia durante uns 30 minutos, este cão será indicado para alguém com um estilo de vida mais ativo e dinâmico.

Agora que ponderou sobre todas estas questões e está decidido a ir buscar o novo membro da família, então deverá ainda definir com a sua família as regras básicas para que este se adapte correctamente à sua vida e família.

O seu futuro companheiro canino já chegou a casa! Lembre-se que ele está assustado, encontra-se num ambiente estranho e decerto não vai gostar que uma ou duas crianças o recebam de forma ruidosa com toques, abraços fortes e empurrões, isto por si só, poderá ter um desfecho desagradável! Aliás, muitas das devoluções de cães adotados impulsivamente têm como principal causa, a resposta agressiva que o cão apresenta assim que as crianças o cumprimentam.

O cão deverá parar à entrada da porta, deixe que sinta o novo odor antes de entrar. Assim que ele demonstrar uma postura corporal calma, dê um passo em frente e entre. Deixe que o cão cheire o espaço circudante aproveitando desde já, para limitar os espaços onde o cão não poderá entrar ou frequentar durante o dia-a-dia. Durante este processo, a restante família deverá permanecer sentada no sofá e aguardar calmamente até que o cão se mostre curioso e se aproxime. Não devem fazer qualquer carícia de imediato, devem aguardar até que o cão se sinta confortável no seu novo espaço. Mostre-lhe com calma o local onde deverá dormir e comer, e quando o cão se mostrar mais descontraído e se aproximar dos membros da família a procurar interação, poderá acariciá-lo e brincar um pouco com ele, mas sempre sem gestos bruscos ou gritos.

 A ter presente não só durante as semanas que antecedem a chegada do novo membro mas também, durante toda a vida do cão:

 1. Certificar-se de que toda a família irá respeitar as regras pré-estabelecidas referentes ao novo elemento canino;

(Regras como não saltar para cima de qualquer pessoa para cumprimentar, não dormir nos sofás e camas, não tirar comida da mesa durante as refeições ou pedinchar durante as mesmas, etc…)

 2. Arranjar um espaço (cama ou casota) para que o seu cão se refugie quando não quiser brincar com as crianças ou para quando necessite de repousar ou dormir;

(Crianças e adultos devem respeitar os períodos de descanso dos cães, quando estes se recolhem na casota ou cama é porque necessitam de espaço. As crianças devem ser ensinadas a respeitar esse espaço.)

 3. Certificar-se que ambos os pais entendem os conceitos básicos de psicologia canina, favorecendo o adestramento do seu cão essencialmente pela positiva e sem violência;

(Contactar um profissional para uma sessão teórica de esclarecimento acerca de psicologia canina e adestramento positivo é uma alternativa com um custo bastante razoável nos dias de hoje. Outra opção, será a pesquisa em livros, internet e revistas da área.)

 4. Ensinar ao cão os comandos básicos de obediência, por exemplo: aqui, larga, lado/junto, senta/seat, deita/down e busca;

(Integrar uma aula para cães ao fim-de-semana ou contratar um adestrador para aulas no domicílio, são alternativas com preços bastante acessíveis hoje em dia, fazendo toda a diferença no futuro comportamento do seu cão.)

 5. Empenhar-se para apender a interpretar sinais indicadores de tensão/ansiedade/medo no seu cão, e ensiná-los às crianças:

 -Lamber os lábios repetidamente (apaziguamento/ansiedade);

 -Arfar rapidamente sem ter feito qualquer actividade física desgastante (ansiedade);

 -Ganidos e pequenos latidos agudos e curtos (ansiedade);

 -Vários bocejos num contexto agitado (ansiedade);

 -Abanar-se várias vezes sem ter o pêlo molhado ou sujo com terra(tensão/insegurança);

 -Permanecer imóvel com olhar fixo num ponto e boca fechada (tensão/aviso antes da mordida ou antes de tentativa de mordida);

 -Tremores sem estar frio (ansiedade/medo);

 -Mostrar os dentes e ladrar com a cauda completamente no meio das pernas (medo/receio de ameaça)

 -Etc…

 6. Explicar às crianças quais as atitudes a evitar para não provocar comportamentos agressivos por parte do cão:

 -Abraçar o cão;

 -Não respeitar o espaço pessoal do cão apesar dos seus avisos através dos sinais corporais de tensão;

 -Acordar o cão com beliscões e empurrões ou puxões de orelhas;

 -Tirar a comida/brinquedo directamente da boca do cão ou do seu espaço pessoal sem ordem verbal ou gestual para largar ou afastar-se;

 -Invadir a casota/cama do cão quando este está a repousar.

 7. Adultos devem estar sempre presentes para supervisionarem as brincadeiras entre crianças e cães, repreendendo a criança quando esta tem um comportamento inaceitável para com o cão, e repreendendo o cão quando este tem um comportamento inaceitável para com a criança;

Existem inúmeros cães que poderiam ser excelentes membros da família desde que fossem orientados pelos adultos responsáveis: os pais!

Educar o seu cão desde tenra idade através da aplicação de reforços positivos após comportamentos desejáveis, e através de repreensões após comportamentos indesejáveis, sem nunca recorrer à violência ou agressão, são medidas essenciais para evitar surpresas desagradáveis no futuro. A supervisão constante das brincadeiras entre crianças e cães, entender um pouco de psicologia canina e de comportamento canino são os pontos essenciais para o sucesso!

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