Cães, treinar ou educar?

cão esperto

Cães, treinar ou educar?

Imagine um dia normal da sua vida, após a rotina matinal, antes de sair para o emprego, leva o seu cão a dar um passeio, o tempo está agradável e a temperatura amena, um dia perfeito para passear com o seu cão! Hoje até acordou uma hora mais cedo para aproveitar e caminhar um pouco com o seu fiel companheiro, leva o seu brinquedo preferido, uns biscoitos e pensa para si: – hoje nada poderá correr mal!

Assim que sai do seu apartamento encontra-se com o seu vizinho da frente, este que até gosta de cães, cumprimenta o seu cão de um modo entusiástico ora, o Bobi que até é um cão brincalhão e muito sociável com humanos, salta para cima do seu vizinho deixa a sua face marcada com uma valente cabeçada no maxilar, como se não bastasse a baba do Bobi suja-lhe o fato e a gravata. Por mais que repetisse a palavra – “não” e mesmo segurando e puxando a trela, o Bobi saiu vencedor e cumprimentou o seu vizinho da melhor maneira que ele sabe! Como o seu vizinho até é simpático, diz: – não faz mal, ele está só a brincar, mas vou ter que mudar de gravata, já vou atrasar-me! Você entra no elevador e tenta não dar muita importância ao caso, dizendo a si mesmo: – são coisas que acontecem! Desce até à rua e assim que sai do prédio o Bobi dá-lhe um esticão deixando-o com uma pequena dor no pulso, por mais que lhe diga para ir devagar, ele parece nem ouvir e segue em frente farejando tudo o que encontra, marcando qualquer objecto e local com a sua urina, desde carros, motas, postes, portas de outras casas etc… finalmente chegou a um local relvado onde pode deixar o seu cão mais confortável dando-lhe mais trela para ele fazer as suas necessidades fisiológicas porém, pensa: – ah! Não está aqui ninguém, vou soltá-lo para ele correr um pouco! E assim que o solta, o Bobi, que já estava de olho no cão do outro lado da estrada que você não tinha visto, atravessa a estrada a correr e por um triz não é atropelado pelo autocarro que passava na altura. Você grita o seu nome em vão, mostra os biscoitos, o brinquedo, mas… o Bobi… não quer saber dos biscoitos, do brinquedo e nem de si! Está muito mais interessado no outro cão. O problema maior é quando se apercebe de que o Bobi não ia com intenções de brincar mas sim, de impor-se perante aquilo que ele achava ser uma ameaça! Sem qualquer aviso, o Bobi morde o outro cão e os dois iniciam uma luta desenfreada com latidos e rosnadelas audíveis do outro lado da estrada. A senhora que acompanhava o seu cão à trela, fica nervosa e é incapaz de agarrar qualquer um dos cães, você, sem pensar duas vezes desata a correr e lá consegue agarrar o seu cão colocando-lhe a trela. Quando tudo acalma, acaba por reparar que o outro cão está com ferimentos consideráveis. A senhora, indignada e nervosa, chama a policia para tomar conta da ocorrência pois considera-o responsável pelo sucedido. A sua identificação é anotada pelo agente de serviço que se deslocou ao local. Finalmente pode levar o seu Bobi para casa e continuar o seu dia da forma que tinha planeando, esperando que não surjam mais imprevistos desagradáveis.

Chega a casa completamente transtornado, aborrecido e frustrado com a sua impotência face ao comportamento do seu cão. Um simples passeio numa manhã soalheira e agradável transformou-se num verdadeiro pesadelo:

  • Sentiu-se responsável pelo atraso do seu vizinho;
  • Magoou-se no pulso quando o Bobi lhe deu um puxão pela trela;
  • O Bobi ia sendo atropelado por não obedecer à sua chamada;
  • Sentiu-se responsável pelos ferimentos que o Bobi provocou no outro cão;
  • Foi identificado por um agente policial que lhe levantou um auto de contra-ordenação com coima por não cumprir a obrigação de usar trela em locais públicos;
  • Vai ser responsável pelo pagamento do tratamento e consultas veterinárias do outro cão;
  • E como se não bastasse, após esta ocorrência ter ficado registada por um órgão de policia criminal, a Junta de Freguesia local será informada, alterando o registo do seu cão para “cão perigoso” apesar de não pertencer a nenhuma das raças potencialmente perigosas, e consequentemente a legislação em vigor irá obrigá-lo a tomar todas as medidas previstas para raças potencialmente perigosas e para cães considerados perigosos.

Os biscoitos não ajudaram e o brinquedo também não! Porque simplesmente a sua relação com o seu cão é praticamente inexistente, neste momento você é incapaz de comunicar eficazmente com o seu cão!

Identifica-se com esta história? Normalmente, o destino destes cães acaba sempre em associações de adopção, se tiverem sorte! Na grande maioria dos casos, nos canis onde serão abatidos após um determinado período de permanência. Pensa que o problema é do cão? Não poderia estar mais equivocado. O problema é do dono/educador do cão!

Se foi honesto consigo próprio e reconheceu que o problema é seu, então deverá ter decidido pedir ajuda profissional! Mas antes de escolher um profissional para o ajudar, terá que levar em consideração o seguinte:

  • Quero que o meu cão seja treinado ou educado?
  • O meu cão é um típico cão de companhia? Familiar?
  • Ou é um cão que vai participar em provas desportivas caninas?
  • Pretendo realizar actividades desportivas caninas com o meu cão ao fim de semana em grupo?
  • Ou apenas pretendo que o meu cão se insira na sociedade humana, frequentando espaços públicos como cafés, esplanadas, praias etc…
  • Quero que o meu cão ingresse numa equipa de busca de salvamento?
  • Ou pretendo que o meu cão permaneça no quintal para guarda e defesa?
  • Ou apenas quero que o meu cão deixe de manifestar certos comportamentos estranhos?

Definir com precisão o objectivo final, irá determinar a escolha do tipo de profissional para o ajudar. Neste momento, em Portugal, temos imensas ofertas na área dos serviços de adestramento e treino canino. Temos profissionais com mais, ou menos experiência prática, temos profissionais com mais, ou menos conhecimento teórico, temos profissionais que se especializam somente em determinadas áreas específicas, tais como problemas comportamentais, ou disciplinas bem definidas e indicadas somente para provas desportivas, temos profissionais que prestam os seus serviços somente em escolas de treino e campos de treino, e temos profissionais que prestam os seus serviços ao domicilio ou em qualquer outro local da preferência do dono/educador.

Se já definiu claramente o que pretende que o seu cão aprenda e qual o comportamento que deseja que o seu cão manifeste, é o momento ideal para visitar algumas escolas de treino e trocar impressões com treinadores/adestradores a título individual que possam treinar e/ou educar o seu cão ao domicilio.

Imagine que se encontra nesta situação e que falou com vários profissionais, avaliou a forma como interagiram com o seu cão durante um primeiro contacto, questionou sobre os seus métodos de treino e até pesquisou sobre estes métodos para poder estar ao corrente dos seus benefícios. Finalmente, decidiu optar por uma escola de treino onde o seu cão teria a oportunidade de iniciar aulas individuais de obediência e mais tarde, na altura certa, seria integrado em aulas de grupo com outros cães.

Ao fim de uns meses de treino apercebe-se que o seu cão mostra-se motivado durante as aulas, responde à chamada e obedece a vários comandos durantes as sessões de treino no campo de treino. É integrado nas aulas de grupo e mostra-se focado em si e nos seus comandos. Excelente! Temos um cão treinado. Mas… algo não está bem! Ele faz tudo o que deve fazer no campo de treino mas… em casa continua a roer sapatos na sua ausência, continua a saltar para cima do seu vizinho, e apesar de proferir o comando “senta” e o seu cão obedecer, assim que lhe dá o comando “livre” ele continua a não saber como cumprimentar pessoas e continua a considerar os outros cães na rua como ameaças. Na esplanada quer ir ter com todas as pessoas que passam, salta para cima de crianças e atira-as ao chão, etc… que se passa? Porque não está a resultar em casa e nos locais públicos em geral?

É simples! O treino levado a cabo num campo de treino é uma boa base para iniciar o treino de obediência e para trabalhar o foco do cão no seu dono/educador. É ideal para cães na área do desporto cuja performance será avaliada sempre num campo de treino e com algumas distracções previsíveis. Mas sejamos sinceros, os donos de cães de companhia, que vivem o seu dia-a-dia em vários locais públicos onde se cruzarão não só com pessoas estranhas de diferentes idades, raças, géneros e estatura, mas também com animais de diferentes espécies, não podem ser treinados somente num campo de treino! As aulas de grupo e individuais em campos de treino para cães de companhia são uma boa base, mas têm de ir mais além! O treino tem de passar para o dia-a-dia, para a sua casa, para o café que frequenta, para o parque junto ao recinto das crianças, para os transportes públicos que frequenta, etc…

Veja-se o caso dos cães de assistência e terapia, o seu treino não se cinge somente ao campo de treino, começa nesse locais mais vai mais além! Ensinar o seu cão a cumprimentar estranhos sem que lhes salte para cima, ensinar o seu cão a permanecer calmo numa esplanada, ensinar o seu cão a cumprimentar crianças sem as atirar ao chão, ensinar o seu cão a passar por outros animais sem mostrar sinais de tensão ou agressividade, é muito mais que treinar! É educar! E na nossa sociedade queremos cães educados! De nada lhe servirá que o seu cão faça mil e um truques ou que consiga fazer uma pista completa de obstáculos, se na verdade, partilhar a casa com o seu cão é um verdadeiro pesadelo!

Se pretende educar o seu cão, escolha um profissional que o ajude não só a treina-lo, mas acima de tudo, que o ajude a educá-lo, usando como base da aprendizagem “ferramentas” e técnicas básicas de psicologia canina com enfâse no reforço positivo.

Não bastará mostrar-lhe como aplicar as “ferramentas” para ensinar ao seu cão comandos básicos, terá que mostrar-lhe como aplicar as “ferramentas” na extinção de comportamentos indesejados e no encorajamento de comportamentos desejados. Na maior parte dos casos exigirá um acompanhamento ao domicílio. De nada servirá internar um cão numa escola de treino durante um determinado intervalo de tempo para mais tarde ir buscá-lo esperando que este saiba fazer de tudo um pouco. A sua aprendizagem foi com outro individuo, noutro local e com outras rotinas, assim que ele voltar à sua casa consigo, apresentará os mesmos comportamentos que gostaria de ver corrigidos.

As correcções de determinadas condutas só poderão ser feitas com precisão e eficácia no local onde estas se manifestam e na presença das pessoas que eventualmente poderão ser causa destas. O dono/educador do cão terá que aprender a aplicar as “ferramentas” práticas fornecidas pelo adestrador/treinador para controlar futuros comportamentos indesejados perante os mais variados cenários.

Um cão educado:

  • Permite o seu manuseamento em qualquer parte do seu corpo, verificando ferimentos, sinais de doença ou simplesmente para a administração de medicação;
  • Demonstra boas maneiras, sendo capaz de passar a maior parte do seu tempo dentro de uma habitação juntamente com a sua família humana cumprindo os limites estabelecidos por esta;
  • Gosta de manter-se perto de si, mostra-se focado e atendo, disponível para receber comandos e recompensas;
  • É capaz de andar ou correr ao seu lado sem puxar a trela;
  • Reconhece o comando “larga”;
  • Mostra motivação e entusiamo ao executar o comando “senta” ou outro qualquer comando independentemente do local e /ou situação;
  • Entende e cumpre os limites estabelecidos por si. Entende o que é esperado dele e demonstra poucos ou nenhuns sinais de ansiedade/excitação.

Ao iniciar um plano de treino com o seu cão estará a dar o primeiro passo para prevenir acontecimentos desastrosos que podem colocar em causa a integridade física do seu cão, de outros cães e/ou de outras pessoas. No entanto, mantenha sempre presente que as aulas semanais de obediência na escolinha de cães, por si só, não são suficientes! o treino deve prolonga-se para lá da escola e deve ser aplicado no seu dia-a-dia.

Ao escolher um profissional na área do adestramento/treino canino tenha em consideração:

  • Adestradores/treinadores caninos de qualidade devem mostrar conhecimentos sobre vários métodos de treino e várias técnicas de modificação comportamental, sendo capazes de aplicar o método e/ou técnica que melhor se adequa para o seu cão.
  • Os métodos de treino de eleição devem focar-se essencialmente no reforço positivo, usando castigos somente quando estritamente necessário e da forma mais humana possível;
  • Adestradores/treinadores caninos de qualidade devem demonstar capacidade de comunicação com pessoas e cães. Lembre-se que irão instruí-lo sobre como comunicar com o seu cão;
  • Se o seu cão apresenta problemas de comportamento específicos e muito particulares, as aulas de grupo ou aulas em campos de treino poderão não ser a melhor opção. Problemas comportamentais devem ser tratados por profissionais que apresentem uma especialização nessa área, possuindo um profundo conhecimento em psicologia canina e técnicas de modificação comportamental para cães, por vezes é necessário a colaboração entre o adestrador/treinador e o veterinário;
  • Antes de se inscrever em aulas de treino ou de aceitar ajuda de um profissional que se desloca ao domicílio, peça para observar uma aula/sessão ou peça uma aula/sessão experimental;
  • Evite qualquer profissional que garanta a 100% que o seu cão sairá do local de treino “a falar todas as línguas”. Lembre-se que por mais experiência que o profissional tenha nesta área, cada caso é um caso e nunca existem garantias a 100%, dependerá não só das técnicas e métodos aplicados pelo treinador/adestrador, mas também do temperamento e carácter do cão, e essencialmente, da personalidade e empenho do dono/educador;
  • Evite profissionais que pretendam resolver todas as questões de comportamento e aprendizagem somente com métodos aversivos;
  • Evite profissionais que pretendam treinar o seu cão sem incluí-lo a si em qualquer fase do treino. A educação e treino do seu cão deverá incluir o dono/educador sempre, nem que seja na fase final. Lembre-se que o objectivo é melhorar a comunicação e relacionamento entre si e o seu cão!

Seja um dono responsável e escolha com consciência. Lembre-se que um cão treinado, nem sempre é um cão educado!

Artigos relacionados

2 Comentários

  1. Olá bom dia! Seu artigo é exelente.
    Tenho uma Golden que vou busca-la amanhã estou tentando obter mais conhecimento para poder ter uma cachorra bem educada.
    Grata por toda a boa informação.
    Atenciosamente
    Mª Norberto

    • Olá Maria do Céu, ficamos contentes por saber que o artigo a ajudou de alguma forma a obter informação útil. Se pretender esclarecer alguma dúvida em relação à sua Golden, por favor sinta-se à vontade para nos contactar e ajudaremos naquilo que nos for possível.

Faça um comentário